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A adaptação dos estabelecimentos para sobreviver às mudanças do mercado

Um grupo de jovens de classe média se encontra em um estabelecimento depois da aula e passa horas jogando Counter Strike em rede. Essa cena era comum há cerca de dez anos, quando as lan houses começaram a surgir no Brasil. Mas desde então muita coisa mudou: o acesso à internet em casa ficou mais barato, assim como os computadores, e esses mesmos jovens conseguem jogar o mesmo game com os mesmos amigos, mas cada um em sua casa.

O que aconteceu com as lan houses? Muitas delas simplesmente fecharam – como a franquia Monkey, que teve a última loja funcionando em São Paulo até 2010. Outras conseguiram sobreviver ao perceberem a mudança do público que mais tinha possibilidade de aproveitar dos serviços oferecidos pelos estabelecimentos. Não eram mais os jovens de classe média interessados em jogar que iam em uma lan house, e sim o jovem de baixa renda querendo uma opção para usar a internet.

A percepção dessa transformação faz com que muitas estejam bem hoje em dia. “Se por lan house se entende um espaço de acesso à internet com multipropósito, com uma variedade de produtos e serviços, então estão ótimas, vão de vento em popa”, afirma Mario Brandão, presidente da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (ABCID).

Nos últimos anos elas atravessaram momentos bastante distintos. Entre 2005 e 2008, especialmente, quando os computadores e a banda larga tornaram-se mais acessíveis, a quantidade de usuários dos cibercafés aumentou bastante. Nesse período, os consumidores cresceram 75% e o acesso à internet por lan houses era maior no Brasil do que a internet doméstica, fazendo delas a principal forma de se conectar à web.

A partir de 2010, no entanto, o acesso doméstico voltou a superar as lan houses. Atualmente, 28% dos brasileiros têm nesses espaços uma das formas de se conectar à internet, de acordo com dados do TIC Domicílios e Usuários de 2011 – o mesmo estudo diz que 67% do acesso é feito em casa.

As lan houses, então, passaram por uma mudança total de público-alvo. Se antes os centros eram populares entre jovens de classe média, atualmente são um meio de promover a inclusão digital no Brasil. Os jogos ainda estão lá, mas não têm mais a importância para os negócios que tinham no passado. Hoje em dia quem vai em lan house quer acessar o mesmo que qualquer pessoa acessa em casa ou no trabalho – elas são uma opção para navegar na internet.

“Tudo que é feito na internet é feito nas lan houses. A única diferença é que o público é das classes sociais mais baixas”, conta Brandão. “As redes sociais são campeãs de acesso, seguidas de chats, multimídia, games e todos os demais serviços. O perfil não é diferente em relação a um usuário residencial”, explica.

É difícil medir a quantidade exata de lan houses disponíveis no Brasil. Números do governo federal estimam que existam entre 18 e 20 mil casas registradas. No entanto, há quem especule que até 90% delas estejam na informalidade. O TIC Lan Houses 2010 aponta que há dois anos existiam mais de 100 mil estabelecimentos espalhados pelo Brasil, entre os formais e os informais, com maior concentração especialmente no Norte, Nordeste e em bolsões de baixa renda.

Esses estabelecimentos são pequenos e com perfil familiar. Em 2010, 97% das lan houses tinham até três funcionários e 70% até dez computadores. “Uma lan média tem 10 equipamentos, com uma média de 20 atendimentos por dia”, afirma Brandão. Elas precisaram variar a oferta de serviços – algumas foram além da possibilidade de usar a internet e oferecem auxílio para os consumidores, além da possibilidade de realizar cursos online e acessar serviços do governo.

Fazer trabalhos de escola é um dos novos serviços que jovens buscam. Esses consumidores de baixa renda nem sempre têm computador ou internet em casa – às vezes a possibilidade de usar um PC melhor ou uma conexão mais rápida faz com que eles busquem as lan houses. “O governo tem acesso a estudos que indicam que 45% dos estudantes da rede pública de ensino fundamental do Brasil fazem trabalhos e pesquisas em lan houses espalhadas pelo país”, explica Brandão.

Apesar da importância educacional destacada por Brandão, as lan houses ainda enfrentam um pequeno preconceito ao serem frequentemente tratadas como “casas de jogos” – o que o presidente da ABCID nega que aconteça. “A associação ainda existe, mas isso é pacífico e representa uma incorreção”, conta. “Lan house como um negócio cheio de joguinhos que substitui sem diferenciais os fliperamas está muito mal.”

Via: Olhar Digital